A Dom Bosco pede passagem para o sertão na avenida

Gleuso Damasceno Duarte*

Escola de Samba Dom Bosco em desfile no Carnaval de 2016

Escola de Samba Dom Bosco em desfile no Carnaval de 2016

Puxe o fole sanfoneiro, que o show vai começar.
Bate palma minha gente, meu Sertão vai desfilar.

Chegou a folia!

O Carnaval está aí. É tempo de alegria, de festa, música, desfile, dança. Pelo menos por alguns dias, a mídia retira do primeiro plano o coquetel diário de desastres, conflitos, notícias ruins, para focar as festas de momo.

Blocos de rua, cordões carnavalescos, escolas de samba arrastam multidões de foliões, ocupam ruas e espaços públicos. Além de atrair os holofotes midiáticos, invadem a privacidade dos lares, por dias e noites a fio. Nessa mistura indefinida de alegria, Ilusões de grandeza, sonhos de celebridade, desabafo, catarse individual e coletiva, há de tudo um pouco: do encantador ao horrível, do sublime ao vulgar.

“Vem aí o destaque…!”

Uma escola de samba do carnaval paulistano certamente dará o que falar. Ela não está no grupo principal, muito menos entre as grandes campeãs. Na verdade, trata-se de uma agremiação modesta, situada no Grupo 1, na classificação da União Estadual das Escolas de Samba. Mas é uma escola excepcional, que nada tem de vulgar.

Estamos falando da Escola de Samba criada e mantida pelos salesianos em sua obra social de Itaquera, na capital paulista. Seu nome oficial: Grêmio Recreativo Cultural Escola de Samba Dom Bosco.

A originalidade começa no próprio nome, ao indicar seu patrono: São João Bosco, o santo dos jovens, mais conhecido como Dom Bosco. A escola é excepcional também na origem. De fato, é a única escola de samba fundada por um sacerdote católico.

Recordando o início

No carnaval de 1989, como parte de seu trabalho social na região de Itaquera, Padre Rosalvino Moran Viñayo organizou um bloco improvisado de crianças, dando-lhes a oportunidade de participar sadiamente das brincadeiras populares sem sair de seu bairro. Para a criançada e suas famílias foi sucesso total.

De carnaval em carnaval, o grupo cresceu, conquistou adesões. A comunidade apoiou a iniciativa. Em 1993, reestruturou e formalizou sua organização, transformando-se na Escola de Samba Dom Bosco.

Outra característica exclusiva: a Escola de Samba Dom Bosco é dirigida por dois sacerdotes salesianos: seu fundador, como presidente, e o Padre Renato Rocha, como vice-presidente.

Seis anos depois de sua criação, em 1999, a Dom Bosco participou pela primeira vez do carnaval oficial da capital paulista. Desde então, todos os anos, desfila com brilhantismo entre as escolas dos grupos de acesso no carnaval de São Paulo.

ShutterStock/Bruno Castro

O Sertão  na avenida

No samba-enredo de 2017, a Dom Bosco mantém sua tradição de apresentar temas que mesclam diversão com valores culturais e educativos. O samba enredo, de Babu Energia, apresenta ao público aspectos marcantes da diversidade cultural brasileira.

Mais especificamente, chama a atenção para as festas populares da Região Nordeste, seu folclore, o sincretismo religioso, o cangaço, a devoção ao Pe. Cícero e outras particularidades regionais. Canta a importância e os valores do Sertão nordestino e de seu povo.

Ouça, aprenda e cante a letra do samba.


Samba-de-enredo

Vem sanfoneiro, venha cá
Que o nosso show vai começar
No arrasta-pé do sertão, bate na palma da mão
A Dom Bosco vai passar. (BIS)

O balão vai subindo, mas que noite tão linda
É São João e a fogueira “brazerô”… os corações.
Pra Santo Antônio abençoar
Tem baião e xaxado, “êta” forró “arretado”!

Cultura de um povo nordestino
Que aprendi a cultivar desde menino
Águas de São Pedro, alegria na lavoura
Vou saborear que essa vida é muito boa.

Tem na Bahia de São Salvador
Escadaria, lavagem pro Nosso Senhor.
Tem na Bahia, Senhor do Bonfim
Todas as crenças, pra você e pra mim (BIS)

Lendas e assombrações,
Magias e cores no céu,
Frevo, boi bumbá, maracatu,
Festa de Reis, literatura de cordel.

Ao “padim” Ciço em devoção
Nosso cortejo em romaria
O rei do cangaço é Lampião
Ao som da gloriosa bateria.

FONTE: Comissão para a Comunicação Social da Inspetoria Salesiana de São Paulo, com informações da Sociedade Amantes do Samba Paulista.

Texto de *Gleuso Damasceno Duarte


GDD*Bacharel licenciado em Filosofia. Professor de História. Mestre em Administração. Editor e autor de várias obras didáticas. Foi assistente e professor em escolas salesianas. Atuou no planejamento e implementação da Rede Salesiana de Escolas. Editor de Material Digital de Ensino Religioso da Edebê-Brasil.

Publicado por CSS (Comissão para a Comunicação Social-ISJB)


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