Guerra na Síria. Existe esperança?

Destruição na cidade de Douma, na Síria, na região atingida pelo uso de armas químicas (foto de 16/4/18) Arquivo de Amman / AP Divulgação.

Gleuso Damasceno Duarte*
Publicado em 16-4-2018 – Atualizado em 3-3-2020

Em situações de conflito, a verdade dos fatos e sua correta interpretação devem ser buscadas no campo dos perdedores, não no dos ganhadores, seus aliados e simpatizantes. A razão é simples. Veja a seguir.

Para manter-se informado sobre o que acontece no mundo, hoje mais que nunca, é preciso selecionar bem as fontes de informação. Principalmente quando se trata de conflitos, disputas, guerras. Isso porque as partes em conflito, principalmente os ganhadores, costumam divulgar “fake-news” e “pós-verdades” para legitimar seus atos e impor o próprio ponto de vista.

Fake-news”, como certamente você já sabe, é uma expressão em inglês que se traduz por “notícias falsas”. No uso corrente, indica a divulgação de boatos e notícias distorcidas ou falsas, feita pela imprensa e outros meios de comunicação, com o objetivo de atingir algum desafeto ou oponente.

Pós verdade é qualquer informação interposta entre a realidade e o que é comunicado, para ocultar a intenção real de quem comunica ou modificar a interpretação dos fatos.

Distantes dos eventos recentes na Síria, pensando nas vítimas humanas e nos danos à nossa “casa comum”, nem sempre conseguimos apreender o que realmente  está acontecendo. Informações e notícias nos chegam desencontradas, conflitantes, contraditórias. Nesse contexto, uma informação verificável vinda do palco do conflito merece um olhar mais atento.

É o caso do depoimento de um cidadão sírio, advogado de formação, entrevistado horas depois de um violento bombardeio.  Além de destacar a dramaticidade da situação, seu breve testemunho pode ajudar-nos a  identificar mais nitidamente as forças e interesses que atuam nesta tragédia. Eis a matéria, extraída do jornal The Guardian, de 14-4-18:

“Nossa repórter do Oriente Médio, Mona Mahmood, falou sobre os ataques com Fahad Alqadi, um advogado de 46 anos de idade, residente na cidade de Idlib, controlada pelos rebeldes, no norte da Síria. Ele disse:

 “Eu acredito que este ataque aéreo dos EUA contra Bashar Al-Assad é a única escolha que resta ao mundo para parar seus crimes contra o povo sírio. Todas as negociações e conferências provaram ser fúteis.

Primeiros socorros às vítimas de bombardeios na cidade de Alepo. Crédito: commons.wikimedia.org/wiki/

 Nós não queremos uma guerra que pode destruir a Síria, que já está sendo destruída pelos russos e iranianos. Queremos pressões diplomáticas para forçar as milícias bashar e xiitas a deixar a Síria e deixar o povo sírio viver como vive qualquer pessoa normal no mundo. A mensagem dos ataques aéreos liderados pelos EUA é esta: EUA, Reino Unido e França podem agir sem obter a aprovação dos russos e isso é um ponto de virada muito importante na crise síria.

Os russos vêm manipulando a causa síria há mais de dois anos juntamente com os iranianos e bloqueando qualquer ato internacional contra os massacres cometidos pelo regime sírio. Este ataque é uma mensagem para o presidente russo, não para Bashar, afirmando que a Síria não é uma de suas propriedades.

 Apoiamos qualquer tentativa militar ou diplomática que possa forçar Bashar a sair e acabar com o sofrimento do povo sírio. A guerra é a pior escolha, porque o resultado pode ser desastroso, mas perdemos a esperança de que o regime sírio responderia a quaisquer soluções diplomáticas. Espero que a pressão continue e este ataque aéreo seja apenas o começo.”[1]

Note-se que o entrevistado percebe com clareza e resume em poucas frases o drama do povo sírio:

  • todos sabem que a guerra é a pior escolha;
  • ninguém defende a pior escolha se tem alternativa melhor”;
  • no horizonte imediato não se vê nenhuma opção;
  • e o que se fez até agora prolonga o sofrimento do povo sírio.

Nesse contexto, a falta de esperança e o desalento expressos naquele depoimento são compreensíveis como algo profundamente humano. Mas…

 …sim,  existe esperança!…

Foi imbuído deste espírito que o Reitor-Mor dos salesianos viajou para a Síria, em abril de 2018, levando apoio e solidariedade de toda a Família Salesiana aos irmãos das comunidades locais, independentemente de etnia, cultura e religião.

Além de Damasco, Dom Ángel Fernández Artime visitou outras comunidades salesianas. Celebrou a Páscoa na arrasada cidade de Alepo, de onde enviou mensagem ao mundo salesiano, na festa maior da cristandade.

O sucessor de Dom Bosco, Pe. Ángel Fernández Artime, juntamente com salesianos e membros da presença salesiana na Síria, entre os escombros dos bombardeios, na cidade de Alepo, no dia 8 de abril de 2018, solenidade de Páscoa. (Foto ANS)

Viemos orar pela paz, orar pelo encontro entre pessoas, culturas e religiões e também pedir ao Senhor que, com nossa liberdade humana, tanta guerra e destruição nunca se repitam.

Estamos impressionados com tanta destruição, tanta dor, tantas mortes, impressionados pelas 102.000 pessoas que foram afetadas pelas bombas e pelos mais de 5 milhões de sírios que deixaram a Síria. Isso é realmente doloroso!

 Mas eu quero dizer-lhes mais uma coisa que aqui se pode ver: há muita esperança!

Em primeiro lugar, porque na fé, ainda mais nesta época da Páscoa, sente-se verdadeiramente que a vida continua, que a vida, a fraternidade, a ajuda é possível, que o Senhor apóia todos, todos os crentes, de qualquer crença, “ele, o único Deus”.

Vemos que a vida volta, que há um desejo real de reconstruir a fraternidade, a convivência, continuar servindo o seu povo, aqueles que vêm depois, aqueles que nasceram nesses anos.” [2]

Se mais não temos condições de fazer, sigamos o exemplo do sucessor de Dom Bosco: oremos pela paz, oremos pelo encontro entre as pessoas, culturas e religiões; e peçamos ao Senhor que, com nossa liberdade humana, tanta guerra e destruição nunca mais se repitam.

[1] “Syria: ‘Mission accomplished,’ says Trump after overnight strikes – live updates.” The Guardian, 14-4-2018. In: https://www.theguardian.com/world/live/2018/apr/14/syria-donald-trump-announcement-chemical-attack-live?page=with:block-5ad1fd81e4b0db851d627486#block-5ad1fd81e4b0db851d627486. Acesso em 14 abr.2018. – Trad. livre de GDD.

[2] Agenzia Notizie Salesiane-ANS, abril, 2018.

*Gleuso Damasceno Duarte

GDDBacharel licenciado em Filosofia. Professor de História. Mestre em Administração. Editor e autor de várias obras didáticas. Foi assistente e professor em escolas salesianas. Atuou no planejamento e implementação da Rede Salesiana de Escolas e, na Edebê-Brasil, como Editor de Material Digital de Ensino Religioso, Filosofia e Sociologia.

Publicado por CCS (Comissão para a Comunicação Social-ISJB)


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