A questão do momento

Ataque à Síria

Publicado em 16/4/18 – Atualizado em 25/4/18

Em questões controversas, sobretudo em situações de conflitos, a História mostra que a verdade dos fatos e sua correta interpretação devem ser buscadas no campo dos perdedores, não no dos ganhadores, nem entre aqueles que se veem como tais. A razão é simples: os ganhadores, para impor sua versão da história, costumam interpor “pós-verdades” e “fake-news”  que dificultam a visão da realidade além das aparências do momento.

Destruição na cidade de Douma, na Síria, na região atingida pelo uso de armas químicas (foto de 16/4/18) Arquivo de Amman / AP Divulgação.

Entende-se como pós verdade qualquer informação interposta entre a realidade e o que é comunicado, informação esta que oculta a intenção real de quem comunica ou modifica a correta compreensão dos fatos em foco.

Distantes dos eventos recentes na Síria, pensando nas vítimas humanas e nos danos à nossa “Casa comum”, ficamos perplexos e mal conseguimos apreender o que realmente acontece ali. Informações e notícias nos chegam desencontradas, conflitantes, contraditórias. Neste contexto, qualquer informação verificável e proveniente do palco do conflito merece um olhar mais atento.

É o caso do depoimento de um sírio, advogado de formação, em entrevista ao jornal The Guardian, horas depois do ataque de 14 de abril. Um breve testemunho que pode ajudar-nos a perceber a dramaticidade da situação e identificar aspectos relevantes do jogo de forças que atuam nesta Questão do momento. Eis a matéria, extraída da edição internacional, de 14-4-18:

“Nossa repórter do Oriente Médio, Mona Mahmood, falou sobre os ataques com Fahad Alqadi, um advogado de 46 anos de idade, residente na cidade de Idlib, controlada pelos rebeldes, no norte da Síria. Ele disse:

 “Eu acredito que este ataque aéreo dos EUA contra Bashar Al-Assad é a única escolha que resta ao mundo para parar seus crimes contra o povo sírio. Todas as negociações e conferências provaram ser fúteis.

Primeiros socorros às vítimas de bombardeios na cidade de Alepo. Como geralmente acontece, a população civil, particularmente os grupos mais jovens e as crianças, são os mais prejudicados nas guerras.  https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Wounded_civilians_arrive_at_hospital_Aleppo.

 Nós não queremos uma guerra que pode destruir a Síria, que já está sendo destruída pelos russos e iranianos. Queremos pressões diplomáticas para forçar as milícias bashar e xiitas a deixar a Síria e deixar o povo sírio viver como vive qualquer pessoa normal no mundo. A mensagem dos ataques aéreos liderados pelos EUA é esta: EUA, Reino Unido e França podem agir sem obter a aprovação dos russos e isso é um ponto de virada muito importante na crise síria.

Os russos vêm manipulando a causa síria há mais de dois anos juntamente com os iranianos e bloqueando qualquer ato internacional contra os massacres cometidos pelo regime sírio. Este ataque é uma mensagem para o presidente russo, não para Bashar, afirmando que a Síria não é uma de suas propriedades.

 Apoiamos qualquer tentativa militar ou diplomática que possa forçar Bashar a sair e acabar com o sofrimento do povo sírio. A guerra é a pior escolha, porque o resultado pode ser desastroso, mas perdemos a esperança de que o regime sírio responderia a quaisquer soluções diplomáticas. Espero que a pressão continue e este ataque aéreo seja apenas o começo.”[1]

Note-se que o entrevistado percebe com clareza e resume em poucas frases o drama do povo sírio:

  • todos sabem que a guerra é a pior escolha;
  • ninguém defende a pior escolha se tem alternativa melhor”;
  • no horizonte imediato não se vê nenhuma opção.
  • E o que se fez até agora prolonga o sofrimento do povo sírio.

 Nesse contexto, é compreensível como algo profundamente humano a falta de esperança e o desalento expressos naquele depoimento. Mas…

 …sim,  existe esperança!…

Se, por um lado, o sofrimento sufoca a esperança de tantos, por outro é preciso encorajar aqueles que, como diz São Paulo  e a exemplo de Abraão, “Contra spem in spem credit” (Rm, 4,18), vale dizer: acreditam, mesmo quando não há motivo para ter esperança.

Foi imbuído deste espírito que o Reitor-Mor dos salesianos viajou para a Síria, levando apoio e solidariedade de toda a Família salesiana, aos irmãos das comunidades locais, independentemente de etnia, cultura e religião.

Além de Damasco, Dom Ángel Fernandez Artime visitou outras comunidades salesianas. Celebrou a Páscoa na arrasada cidade de Alepo, de onde enviou mensagem ao mundo salesiano, na festa maior da cristandade.

O sucessor de Dom Bosco, Pe. Ángel Fernandez Artime, juntamente com salesianos e membros da presença salesiana na Síria, entre os escombros dos bombardeios, na cidade de Alepo, no dia 8 de abril de 2018, solenidade de Páscoa. (Foto ANS)

Viemos orar pela paz, orar pelo encontro entre pessoas, culturas e religiões e também pedir ao Senhor que, com nossa liberdade humana, tanta guerra e destruição nunca se repitam.

Estamos impressionados com tanta destruição, tanta dor, tantas mortes, impressionados pelas 102.000 pessoas que foram afetadas pelas bombas e pelos mais de 5 milhões de sírios que deixaram a Síria. Isso é realmente doloroso!

 Mas eu quero dizer-lhes mais uma coisa que aqui se pode ver: há muita esperança!

Em primeiro lugar, porque na fé, ainda mais nesta época da Páscoa, sente-se verdadeiramente que a vida continua, que a vida, a fraternidade, a ajuda é possível, que o Senhor apóia todos, todos os crentes, de qualquer crença, “ele, o único Deus”.

Vemos que a vida volta, que há um desejo real de reconstruir a fraternidade, a convivência, continuar servindo o seu povo, aqueles que vêm depois, aqueles que nasceram nesses anos.”

Se mais não temos condições de fazer, sigamos o exemplo do sucessor de Dom Bosco: oremos pela paz, oremos pelo encontro entre as pessoas, culturas e religiões; e peçamos ao Senhor que, com nossa liberdade humana, tanta guerra e destruição nunca mais se repitam.

Gleuso Damasceno Duarte

[1] “Syria: ‘Mission accomplished,’ says Trump after overnight strikes – live updates.” The Guardian, 14-4-2018. In: https://www.theguardian.com/world/live/2018/apr/14/syria-donald-trump-announcement-chemical-attack-live?page=with:block-5ad1fd81e4b0db851d627486#block-5ad1fd81e4b0db851d627486. Acesso em 14 abr.2018, 12:00 hora de Brasília. – Tradução livre de Gleuso Damasceno Duarte.

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