Dom Bosco compositor: 174 anos de sucesso!

Gleuso Damasceno Duarte*

Turim, 1842

Nas festas religiosas mais importantes, o jovem padre João Bosco era muito requisitado para ajudar nas paróquias vizinhas.

Mesmo com o aumento de trabalho, nunca perdia de vista seu maior objetivo: cuidar dos meninos do oratório e tornar as reuniões dominicais cada vez mais atraentes. A garotada aumentava a cada domingo. E o Natal que se aproximava deu-lhe mais uma ideia.

Dom Bosco havia estudado canto e teoria musical. Aprendera a tocar razoavelmente bem alguns instrumentos: violino, órgão e piano. Sua voz forte adaptava-se a diferentes partes musicais, abrangendo na escala fundamental até o segundo dó da segunda oitava. A música fazia parte do seu cotidiano. E criatividade ele tinha de sobra.

Semanas antes daquele Natal, Dom Bosco resolveu compor uma canção em louvor ao Menino Jesus. Queria um canto fácil de ser aprendido e cantado pelos meninos de rua. Seu biógrafo informa: foi nos intervalos das confissões e funções litúrgicas que ele escreveu o poema, “apoiado no parapeito do coro da igreja de São Francisco” e, usando um velho órgão, compôs a melodia e o acompanhamento.

Assim nasceu um sucesso musical dos mais duradouros entre os cantos religiosos populares: Ah! Si canti in suon di giubilo.

A música de Dom Bosco continua sendo cantada até hoje e traduzida para numerosos idiomas, inclusive para o português:

Ah! Se cante em som de júbilo
Letra e Música: Dom Bosco

Ah! Se cante em som de júbilo,
Ah! Se cante em som de amor.
É, fiéis, nascido o amável
Nosso Deus e Salvador! (bis)

Oh! quão esplêndidas as mil estrelas
E a lua cândida resplendem belas!
Das trevas rasga-se o imenso véu.
Coros seráficos que o céu descerra
Cantam com júbilo: “Paz seja à Terra!”;
Outros respondem-lhes: “Glória no céu!”

Paz querida em nossas almas,
Vem depressa repousar
Entre nós, Menino Deus,
Vos queremos conservar.

Ouça:

    1. Ah! Se cante em som de júbilo (Versão brasileira)
    2. Ah! Se cante em som de júbilo (instrumental)

Colaboração: Padre Geraldo Lisboa, sdb.

Voltando no tempo…

Decorar a letra e aprender o canto era bem fácil.  O acompanhamento criado no velho órgão tinha uma harmonia agradável, bem construída, embora sem os refinamentos do contraponto e os arabescos musicais tão valorizados naquele tempo.[1]

O Oratório ainda não tinha sede própria. Reunia-se aqui e ali, conforme a oportunidade.  Sem local adequado para ensaiar seus “meninos cantores”, Dom Bosco virava-se como podia: organizava os ensaios onde e quando possível. Seu biógrafo informa:  “as pessoas paravam surpresas ao ver um padre no meio de seis ou oito jovens que, fazendo o percurso entre a rua Doragrossa e a praça Milano, caminhavam repetindo em voz baixa uma canção.”[2]

Era assim que aquelas crianças, adolescentes e jovens, na maioria analfabetos, aprendiam “de ouvido” a letra e a música. Suas vozes, porém, mais que da garganta brotavam do coração.

A primeira execução pública foi no Natal de 1842, na igreja dos dominicanos. O próprio Dom Bosco regia o coral, acompanhado por uma pequena orquestra e um velho órgão, que ele mesmo tocava.

Até então, o canto nas cerimônias religiosas era executado pelos cantores de cada igreja, com suas “vozes viris” sempre robustas, nem sempre agradáveis. O povo ficou encantado com aquela novidade: as “vozes brancas” dos meninos do Oratório pareciam um coro angelical acolhendo Jesus recém-nascido, vibravam com fé, e despertavam emoção nos fiéis.

Glória a Deus nas alturas

O sucesso contribuiu para que os meninos do Oratório começassem a ser vistos com bons olhos pela vizinhança, o que não acontecia até então.

A segunda execução em público, na igreja de Nossa Senhora da Consolação, foi seguida por numerosas outras, nos anos seguintes. A canção popularizou-se rapidamente nas igrejas de Turim e cidades vizinhas. Com a obra salesiana, ganhou outros países europeus, e depois, o mundo.

Hoje, uma coisa é certa: onde houver uma capela ou paróquia confiada aos salesianos, e em que a música sacra receba a importância que lhe atribuía Dom Bosco, o Natal ecoará a canção que ele criou para comemorar “em som de júbilo, em som de amor”, o nascimento de Jesus.

 

[1] Lembrete aos aficcionados da música: na época de Dom Bosco, a produção musical era fortemente influenciada por compositores de renome, situados entre os maiores gênios musicais de todos os tempos. Recordem-se como exemplos: Gioachino Rossini (1792-1868); Frédéric Chopin (1810-1849); Franz Liszt (1811-1886); e Giuseppe Verdi (1813-1901); este último era contemporâneo de Dom Bosco e seu conhecido.
[2] LEMOYNE, Giovanni Battista. Memorie biografiche di Don Giovanni Bosco. vol.2,  p.47, ss.

Texto de *Gleuso Damasceno Duarte


GDD*Bacharel licenciado em Filosofia. Professor de História. Mestre em Administração. Editor e autor de várias obras didáticas. Foi assistente e professor em escolas salesianas. Atuou no planejamento e implementação da Rede Salesiana de Escolas. Editor de Material Digital de Ensino Religioso da Edebê-Brasil.

Publicado por CSS (Comissão para a Comunicação Social-ISJB)


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