Dom Bosco e a música

Pe. Geraldo Martins Lisboa, sdb*

Para Dom Bosco, a música era a alma do Oratório,
uma peça essencial ao bom funcionamento de seu projeto pedagógico.
Para incrementá-la, valia tudo: até tocar em um velho órgão de madeira com tubos rachados,
que, vez por outra, no lugar de notas, emitiam guinchos que provocavam risadas.

 

A música como atração no Oratório

Dom Bosco procurava todos os meios a fim de tornar mais amenas e alegres as reuniões de domingo no Oratório. Sabia tocar órgão discretamente e tinha estudado piano; tinha estudado, por inteiro, alguns métodos mais famosos. Sua voz harmoniosa subia ao segundo dó da segunda oitava.

Sua primeira composição

Em 1842, aproximando-se o Natal, preparou uma pequena canção em louvor ao Menino Jesus. A letra – Ah! Se cante em som de júbilo foi! – composta na sacada do coreto da igreja de São Francisco. Depois, ele colocou a música. Os meninos não sabiam uma nota. Dom Bosco os preparou. Não havendo lugar no Colégio Eclesiástico, ele saía de casa e o povo parava para ver, admirado, um padre junto com seis ou oito meninos, entre a rua Doragrossa e a praça Milão, caminhando e repetindo uma canção em voz baixa.

A canção foi executada em 1842, nos Dominicanos e depois na Consolata. Dom Bosco dirigia uma pequena orquestra e tocava órgão. O povo, ainda não acostumado com tal novidade – orquestra com voz branca de meninos – ficou entusiasmado; até então, estavam acostumados a ouvir os mestres e vozes robustas nem sempre simpáticas, que, naquele tempo, estavam presentes na celebração.

Depois Dom Bosco adaptou a música para o Tantum Ergo a fim de facilitar o pouco conhecimento musical dos meninos. Cantou-se por cerca de vinte anos. Vieram outras músicas, a fama cresceu e provocou o afeto do povo. Apaixonado pela música, Dom Bosco fixou um letreiro na porta da sala de música, na sacristia da igreja de S. Francisco de Assis. Aí se lia: Ne impedias musicam   (Eclo 32,5). Chegou a executar até celebridades musicais: Cherubini, Rossini, Haydn, Palestrina, etc.. Mais tarde surgiu o canto do Anjo Santo. A letra foi do poeta Sílvio Pellico, amigo de Dom Bosco. Ele adaptou uma canção popular sobre a letra, originando assim o tradicional canto Anjo Santo, guarda amado, cantado por muito tempo nas casas salesianas. Apareceram outros cantos que aumentaram a alegria dos meninos e a admiração do povo.

Os passeios como prêmio para os cantores

Era o ano de 1855. Dom Bosco vai aos Becchi para a festa do Rosário. Era um passeio ao qual levava os jovens mais obedientes, como prêmio. Justamente naquele ano, apareceu a novidade, uma atração: a banda. Um religioso havia fundado um oratório na França. Encontrara-se com Dom Bosco a fim de lhe pedir o parecer sobre a música no Oratório. Ele tinha receio de que a música fosse prejudicial à educação, embora dela reconhecesse todas as vantagens, como ocupação, divertimento. Dom Bosco já lhe tinha dito que “um oratório sem música é um corpo sem alma.” Ao saber do receio do religioso, pergunta: “É melhor o ser ou o não ser? E repete enfaticamente: Um oratório sem música é um corpo sem alma”.

Em Castelnuovo, o vigário que o recebia com seus meninos, e lhes preparava o almoço, queria ouvir os cantores. Tinha uma preferência por Mercadante, especialmente pela famosa obra Et Unam Sanctam. Então havia a execução de várias peças, escolhidas a propósito para o evento. À hora do almoço, os instrumentos se faziam ouvir, com a execução de uma conhecida canção popular.

O canto enriquece as celebrações

Dom Bosco desejava ardentemente que todos aprendessem as loas sagradas e o canto gregoriano. Em 1852, terminadas as aulas, aos sábados, de tarde, ensaiavam-se as antífonas e a salmodia para as vésperas do domingo. Em 1851, o Pe. Michelangelo Chiatellino tinha composto uma missa e parte da ladainha que dera de presente a Dom Bosco. Os meninos aprenderam a música e a executaram, com prazer, nos anos seguintes.

Para melhor celebrar, nada melhor do que a música

O estudo da música no Oratório era serviço da Igreja e às vezes o próprio Dom Bosco ensinava algum canto, embora houvesse outros que desempenhavam este papel. Para incentivar, Dom Bosco tentou obter, de Pio IX, indulgências especiais para os maestros e alunos. Mostrava especial satisfação quando os meninos executavam bem o canto gregoriano.

Dom Bosco autodidata

Dom Bosco aprendera a tocar piano sozinho. Não tendo o instrumento em casa, ia para a casa de algum amigo padre a fim de treinar. Ele não suportava uma espécie de sacrilégio, comum naquela época: um grande número de maestros, seguindo a tendência da época, adaptava cantos religiosos, partes da missa (Kyrie, Gloria, Credo, Tantum Ergo…) a temas profanos. Era comum ouvir coro e solo religioso adaptados a obras teatrais. Foi então que Dom compunha e ensaiava, ele mesmo. Tinha um coral já com mais ou menos cinquenta meninos. Muitos deles nem sempre podiam frequentar porque eram operários comprometidos com o serviço, o que, às vezes, os impedia de participar plenamente. Dom Bosco, assentado à espineta, ensaiava, tocava, e, muitas vezes, na hora da celebração, ele tinha de improvisar e cantar no lugar dos rapazes que faltavam. Ele fazia da música instrumento para atrair os meninos para o Oratório. Gente estranha e sacerdotes que vinham a Valdocco ficavam maravilhados com o coro infantil e faziam de tudo para vê-los cantarem nas suas igrejas.

O maestro Bodoira

Dom Bosco era meio descuidado com a partitura. Confiava muito na memória e não anotava adequadamente o que deveria anotar para a boa leitura da partitura. Foi convidado a cantar no santuário da Consolata. Lá Dom Bosco pediu ao maestro Bodoira que acompanhasse, ao órgão, o canto dos meninos. Ele era famoso por executar, à primeira vista, inclusive peças das mais difíceis. Ele aceitou, mas, na hora, não havia como interpretar a partitura. Olha, sacode a cabeça… “Mas quem é que entende…que clave é esta?… Os meninos entraram fora do tom. O maestro pegou o chapéu, desceu do coro e foi-se embora. Dom Bosco, que havia previsto tal retirada, se assentou ao órgão e acompanhou a missa até o fim, sem que os meninos errassem uma só nota.

A escola de música

Dom Bosco fazia questão das várias celebrações cantadas. Isto era motivo para treinar os grupos de cantores e manter as escolas de música. Dividia os jovens em três grupos e, em cada um deles, punha um aluno já mais treinado e conhecedor das notas para sustentar. Um deles era Tiago Bellia.

Testemunho de um dos seus cantores

Dom Bosco, escreveu Tomatis Carlo, dedilhava um mesquinhíssimo piano para nos fazer aprender as melodias e às vezes treinava algum voluntário na aprendizagem do violino. Um dia, em 1850, se inspirou num motivo ouvido das trompas dos soldados que vinham fazer exercício próximo ao Oratório e escreveu um Tantum Ergo, a uma voz, que eu conservo e que cantei muitas vezes, indo com ele e outros companheiros músicos às funções sagradas, celebradas em Turim, nos lugares vizinhos e mais frequentemente na Crocetta. Também Reviglio Felice ajudava Dom Bosco no canto, de 1850 a 1856.

O primeiro órgão

Um presente Dom Bosco preparou para os músicos, algum tempo depois. Ele adquiriu um pequeno órgão com tubos de madeira, construído, talvez, dois séculos antes. Era rachado, pouco harmônico, mas servia para exercitar os dedos do músico iniciante. Todos se lembram de como um tubo com a válvula quebrada mandava uns berros grosseiros que provocavam gostosas risadas nos jovens. Este instrumento foi colocado na sala vizinha à de Dom Bosco e mais de um dos que o tocaram por primeiro se tornaram excelentes organistas.   Em 1847, no dia 5 de novembro, Dom Bosco comprou o primeiro harmônio para o Oratório. Custou 35 liras.

A voz das crianças, coisa diferente para a época

Em 1848, dando muito valor à música e querendo preservar a escola de canto, Dom Bosco acrescentou às lições de música vocal as de piano e órgão. Este último suscitava um grande entusiasmo. Enquanto se procurava organizar a banda e treinar alguns jovens a dedilhar o piano para fazer o órgão soar, a seu tempo, a música vocal se aperfeiçoava. Assim vozes bem preparadas convenceram Dom Bosco a levar os jovens para cantar nas igrejas públicas de Turim, no mês de Maria, e em outras funções das quais todos os jovens participavam. Isto prendia os jovens ao Oratório cada vez mais e fazia bem ao povo devoto. O povo, acostumado a ouvir orquestra e vozes robustas de adultos, se admirava ao ouvir o coro dos meninos, pensando que se tratava de vozes de anjinhos a tocar as fibras do coração humano; não era raro se verem homens e mulheres verterem lágrimas de emoção e de consolação naquelas festas. Em toda parte, se falava da música de Dom Bosco; se desejava; se procurava para as festas e solenidades. Aquilo causava um prazer muito grande nos meninos.

 

Dom Bosco tinha ajudantes

O cônego Luiz Nasi, de Turim, e o padre Michelangelo Chiatellino, de Carignano, acompanhavam o trabalho dos meninos músicos, dando apoio e segurança; eram exímios músicos, o que evitava possíveis fiascos. Naquele ano, foi celebrada uma bela festa no santuário da Consolata. O canto na procissão e na missa atraiu muita gente aos pés da Virgem Maria. Até 1854, se fez a procissão, uma ou duas vezes ao ano.

Triunfo

Um dia, Dom Bosco levou seus meninos à Madona del Pilone. Em três barcas, no rio Pó, no meio do rio, entoaram uma loa. O povo que estava nas margens do rio, admirado, começou a seguir as barcas. Estavam por ali alguns trombeteiros, que, ao ouvirem a música, começaram a tocar juntos, produzindo um efeito mágico. Todos os habitantes da Madona del Pilone saíram de casa e, quando as barcas aportaram, havia cerca de mil pessoas reunidas, admirando, rodeando os meninos cantores. Aquele foi um dos primeiros triunfos musicais de Dom Bosco, “que preludiava os milhares e milhares de outros que haveria em seguida, em todo o mundo.

A música dos jovens se ouve com o coração

Certa vez, Dom Bosco recebeu umas visitas, entre as quais estava um abade. A banda executou algumas peças. O abade, de ouvido sensível fez uma crítica, alertando Dom Bosco sobre a desafinação, alguma coisa que não o tinha agradado. Dom Bosco respondeu simplesmente: “Senhor abade, a música dos jovens não se ouve com os ouvidos, mas com o coração”.

O Regulamento do Oratório

No Regulamento do Oratório, dos primeiros anos, anos 40, há um capítulo para os cantores. É o capítulo XI. Contém nove itens, e o item 9 diz: Aos cantores é calorosamente recomendado que evitem a vaidade e a soberba; dois vícios bastante deploráveis, que fazem perder o fruto daquilo que se faz e produz inimizade entre os colegas. (Um cantor verdadeiramente cristão não deveria nunca se ofender, nem ter outro objetivo a não ser louvar a Deus e unir sua voz à voz dos Anjos, que O bendizem e O louvam no céu). (MB III, 106)

 

*Geraldo Martins Lisboa, padre salesiano (Inspetoria São João Bosco)

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