Em tempos de coronavírus… o exemplo de Dom Bosco

Considerando a disseminação do coronavírus na maior parte do mundo, o Reitor-Mor, P. Ángel Artime, endereçou a todos os membros da Família Salesiana, pela Agência de Notícias Salesiana, o seguinte convite.

Gleuso Damasceno Duarte
Publicado em 18-04-2020 – Atualizado em 19-4-2020

Caros irmãos, querida Família Salesiana, queridos jovens!

Nestes dias, olhando ao redor e ouvindo as várias notícias, todos somos movidos por verdadeira atenção e compaixão pelo que está acontecendo ao nosso redor, em nossas cidades e em nossos países.

Estando aqui em Turim, ressoa fortemente em meu coração a história de 1854 em que Dom Bosco convida os jovens de Valdocco a “levantar-se” e dar uma mão no enfrentamento da epidemia de cólera.

Hoje, nós também não queremos sentar e assistir. Sinto que esta é uma ocasião para nós, em família, levantarmos as mãos e orar ao Pai através da intercessão de Maria Auxiliadora.

D. Bosco acreditava no poder de Deus e na intercessão de Maria. Nos surtos de cólera, além dos cuidados para prevenir o contágio indicava aos jovens que vivessem cristãmente e pedissem a proteção de Maria Auxiliadora dos Cristãos.

Convido toda a Família Salesiana a viver uma Novena Extraordinária a Maria Auxiliadora nos próximos dias, de 15 a 23 de março e juntos, no dia 24, faremos uma Consagração a Maria, nossa Mãe e Mestra. Este convite meu vai principalmente para vocês, meus queridos jovens!

Padre Ángel Fernández Artime

Reitor-Mor

A data indicada é uma referência para o mundo salesiano, mas o exercício de fé e piedade pode ser realizado em outras ocasiões, segundo a conveniência pessoal.

Recordando Dom Bosco

Para compreender as “condições semelhantes” a que se refere o Reitor-Mor, façamos um breve recuo na história.

Incontáveis epidemias, comumente chamadas de “peste”, flagelaram a humanidade ao longo de sua existência, em diferentes partes do planeta. No mundo ocidental, sobretudo no chamado Oriente Próximo e na Europa, foram registradas desde a Idade Média numerosas epidemias.

Uma das mais conhecidas, graças aos livros e aulas de História, foi a peste negra, que chegou à Europa em 1348 e provocou a morte de milhões de pessoas. Numa época em que os cuidados com a higiene e as condições de vida da população eram muito precárias, a peste negra invadiu campos e cidades, dizimou a população de feudos e reinos, devastou países inteiros.

Muitos surtos de peste ocorreram em diferentes países ao longo dos séculos seguintes, atingindo por vezes áreas muito extensas, o que caracteriza as pandemias. Com o advento da Revolução Industrial, as facilidades de transporte e viagens contribuíram para multiplicar tais problemas.

A cólera, também chamada de “doença asiática” por causa de sua origem, é transmitida por uma bactéria, o vibrião colérico. Nos tempos de Dom Bosco, no século XIX, a Europa enfrentou sete pandemias de cólera. Seis delas atingiram a Itália.

No cenário público de seu tempo, o Santo dos Jovens sempre se distinguiu como cidadão ativo e participante, atento ao bem comum, pronto a colaborar com os necessitados. Desde a segunda década de existência do Oratório de Valdocco, ele enfrentou mais de um surto de cólera.

Além dos cuidados para preservar a saúde dos rapazes, colocava à disposição das autoridades os recursos de que dispunha. Ajudava a cuidar dos doentes, amparava meninos e rapazes que perdessem seus pais devido à cólera. Uma atitude que se repetiu em várias ocasiões. Por exemplo, em 24 de setembro de 1884, ele escreveu ao Prefeito de Turim a seguinte carta:

Ilustre senhor prefeito,

Segundo vários relatos, parece que o cólera morbus, que já penetrou em alguns povoados da província, está cada vez mais perto da cidade de Turim; portanto, apesar das louváveis e úteis precauções tomadas pelas autoridades, é de se temer que também afete nossos concidadãos.

Temos confiança de que isso não acontecerá, mas se as esperanças comuns derem errado, julgo fazer algo do agrado de Vossa Ilustríssima Senhoria, oferecendo a admissão no Oratório de São Francisco de Sales de todos os jovens pobres de 12 a 16 anos que, devido à epidemia, ficarem órfãos de seus pais e abandonados, e estiverem nas condições físicas exigidas pelo Regulamento do Instituto.

Na invasão do cólera de 1854 e 55, essa oferta foi feita ao prefeito da época, e é o mesmo que repito com satisfação a V. S., contente em poder contribuir de alguma maneira para o alívio das misérias humanas.

A única condição que ponho é que os jovens acolhidos sejam visitados antes pelo médico, para certificar que não apresentam nenhum sintoma da doença, a fim de não comprometer a saúde de seus companheiros.

Confiamos que Deus, em sua misericórdia, manterá tal infortúnio longe de Turim. De qualquer forma, oro ao Céu que mantenha por muito tempo a V. S., Sr. Prefeito desta grande e ilustre cidade, preserve sua pessoa e todos os membros do Município do temido flagelo e nos conceda força e coragem para fazer o bem a todos.

Confiante em que V.S. deseja preservar sua preciosa benevolência para com os jovens desta casa, tenho a honra de me professar com grande estima por V. S. Ill.ma.

Turim, 24 de setembro 84.

Servo de V.S.

Sac. Giovanni BOSCO [1]

Note-se que Dom Bosco punha uma única condição para receber cada órfão: que as autoridades garantissem num atestado médico que o rapaz não estava contaminado. Aliás, nem podia ser diferente. De fato, quando a epidemia chegou a Turim, em julho de 1854, Dom Bosco mantinha no Oratório quase uma centena de rapazes, em regime de internato.

O exemplo de Domingos Sávio

Na Turim de 1854, a região mais atingida foi a de Valdocco, onde ficava o Oratório São Francisco de Sales.

Dom Bosco, repleto de fé e imbuído do espírito religioso da época, mesmo conhecendo os riscos de contágio, convidou voluntários entre os jovens do Oratório para ajudar a cuidar dos enfermos. E repetia a eles: “Se vocês não cometerem pecados, garanto-lhes que ninguém será contaminado”. Domingos Sávio foi um dos vários que se ofereceram e trabalharam como voluntários.

Enquanto muitas famílias foram completamente destruídas, nenhum dos jovens e funcionários do oratório foi sequer contaminado.

Não se pode negar que  neste episódio, amplamente documentado, Dom Bosco foi um verdadeiro profeta.

[1] CERIA, Eugenio. Memórias biográficas de São João Bosco – Vol. XVII, ed. 1936 – 4ª edição digital. [pág. 91]

Texto de *Gleuso Damasceno Duarte


GDD*Bacharel licenciado em Filosofia. Professor de História. Mestre em Administração. Editor e autor de várias obras didáticas. Foi assistente e professor em escolas salesianas. Atuou no planejamento e implementação da Rede Salesiana de Escolas e, na Edebê-Brasil, como Editor de Material Digital de Ensino Religioso, Filosofia e Sociologia.

Publicado por CSS (Comissão para a Comunicação Social-ISJB)


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