Na vanguarda do progresso (I)

Gleuso Damasceno Duarte*

Nesses assuntos, Dom Bosco quer estar sempre na vanguarda do progresso”[1].
Um programa de atuação no “continente digital” (1ª parte).

 

O visitante ilustre

Dom Bosco fez essa afirmação num contexto histórico revelador.

 

Pio XI como sacerdote pouco após a ordenação

O Pe. Aquiles Ratti, pouco após sua ordenação sacerdotal, ocorrida em 1879

Era o outono de 1883. Seu interlocutor, o jovem sacerdote Pe. Aquiles Ratti, vinha da arquidiocese de Milão e queria conhecer em Turim a obra de que tantos falavam: as escolas profissionais criadas por D. Bosco. Nelas, dezenas de rapazes aprendiam uma profissão, que lhes possibilitaria ganhar honestamente o próprio sustento e serem úteis à família e à sociedade.

Pe. Aquiles trabalhava na centenária Biblioteca Ambrosiana e acompanhava as grandes transformações de seu tempo, especialmente o desenvolvimento acelerado da imprensa. Novas tecnologias se difundiam rapidamente, aumentando a oferta de material impresso: livros, jornais, revistas, publicações avulsas de todo tipo.

Pe. Eugenio Ceria, biógrafo de Dom Bosco, nota que uma das oficinas “interessa muitíssimo ao visitante:  a tipografia, com seus anexos e equipamentos, como a fundição de tipos e a encadernação de livros.”

Mas, Dom Bosco não pode acompanhar seu ilustre hóspede, e pede-lhe desculpas:  “O senhor, caro Pe. Aquiles, é o dono da casa. Lamento não poder acompanhá-lo, pois estou muito ocupado; nem mesmo sei quem indicar para servir-lhe de guia, porque todos os outros também estão ocupados. Portanto, o senhor vá e venha como achar melhor, e veja tudo o que quiser.”[2]

 Quando reencontrou Dom Bosco no refeitório, e este perguntou-lhe o que tinha visto de bonito, o Pe. Aquiles respondeu : Eu vi maravilhas hoje.”[3]  E cumprimentou Dom Bosco pelo impulso dado à produção de livros em sua tipografia  “por meio dos inventos mais completos e modernos da mecânica.”[4]

Meio século depois, como Papa Pio XI, Aquiles Ratti recordava aquele dia e destacava a reação de Dom Bosco: humilde como de costume, e falando de si mesmo na 3ª pessoa, ele respondeu aos cumprimentos do visitante, dizendo: – “Nesses assuntos Dom Bosco quer estar sempre na vanguarda do progresso.”[5]

 O futuro Papa percebeu o alcance da afirmação: “Isso significava que nos trabalhos de impressão, publicação e difusão de livros Dom Bosco não queria ceder o primeiro lugar a ninguém”, porque estas “eram exatamente as obras de sua predileção” [6]

Instrumentos valiosos

No início da carreira sacerdotal, Dom Bosco havia pensado em dedicar-se a algum trabalho literário ou científico. Como disse ao Pe. Ratti, chegou a elaborar “um vasto plano de estudos, um vasto plano também de historiografia eclesiástica”.  Porém, acrescentou: – vi que o Senhor me chamava para um outro caminho.” [7]

Tipografia de Dom Bosco

Logomarca original da tipografia de Dom Bosco

Ao dedicar especialíssima atenção à produção de livros, Dom Bosco pensava na tarefa a que se sentia chamado por Deus: formar bons cristãos e honestos cidadãos. Pensando na extensão da vinha a ser cultivada ele percebia a imprensa como auxiliar valiosíssimo para difundir sua pedagogia evangelizadora. Através dos livros, queria alcançar lugares onde nem ele nem seus colaboradores conseguiriam atuar diretamente.

Por isso mesmo, decidiu produzir livros em grande quantidade, espalhá-los a mãos cheias. Não apenas nas escolas e oficinas, mas também nas associações religiosas, nos hospitais, nos cárceres, no meio do povo, enfim, em todos os lugares onde o levasse a inspiração do Espírito, o carisma recebido de Deus para o bem da Igreja. Era para isso que ele buscava os recursos mais avançados de seu tempo.

Programa de ação para a Família Salesiana

Dois anos após o encontro com o futuro papa, numa carta circular a seus “diletos filhos” Dom Bosco afirmou:

“O livro, se por um lado não tem a força inerente à palavra viva, de outro lado tem ainda mais vantagens em certas circunstâncias. O bom livro entra mesmo em lares onde não pode entrar o sacerdote; é tolerado até pelos maus, quando recebido como recordação ou presente. Apresentando-se, não se envergonha; se não recebe cuidado, não se inquieta; lido, ensina a verdade calmamente; desprezado, não reclama e deixa o remorso que às vezes desperta o desejo de saber a verdade, que ele está sempre pronto para ensinar”.

(…)

“Quantas almas foram salvas por bons livros, quantas preservadas do erro, quantas incentivadas a fazer o bem! Quem dá um bom livro, não tivesse outro mérito além de despertar um pensamento de Deus, já teria conquistado merecimento incomparável junto dele. No entanto, há ainda coisa melhor! Um livro em uma família, se não for lido por aquele a quem se destina ou é doado, é lido pelo filho ou pela filha, pelo amigo ou vizinho. Um livro em um lugar, por vezes passa pelas mãos de uma centena de pessoas. Só Deus sabe o bem que produz um livro em uma cidade, em uma biblioteca circulante, numa associação de trabalhadores, em um hospital, doado como símbolo de amizade.” [8]

Para Dom Bosco, naquele tempo, naquele contexto, para o desempenho de sua missão, os livros eram a vanguarda do progresso. Que os continuadores de sua obra explorem os incríveis recursos tecnológicos de nosso tempo para estarem na vanguarda do progresso, e ali, a exemplo do Fundador, usá-los para a formação de bons cristãos e honestos cidadãos.

GDD* Bacharel licenciado em Filosofia; Professor de História; Mestre em Administração; Editor e autor de várias obras didáticas, foi assistente e professor em escolas salesianas. Atuou no planejamento e implementação da Rede Salesiana de Escolas.
Editor de Material Digital de Ensino Religioso da Edebe-Brasil.


 


[1]              CERIA, Eugenio. Memorie biografiche di Don Giovanni Bosco. vol_16, 1935, p.320. In: http://www.sangiovannibosco.net/memorie_biografiche/pdf/MB_vol_16.pdf.

[2]              Idem, p. 321.
[3]              Idem. Ibidem.
[4]              Idem, p. 323.
[5]              Idem. Ibidem.
[6]              “Discurso por ocasião do decreto sobre os milagres para a canonização – 19/11/ 1933”. In: CERIA, Eugenio. O.cit., p.323.
[7]              “Discurso sobre a heroicidade das virtudes” em 20 fev.1927.  – In: CERIA, Eugenio. Idem. Ibidem. ”
[8]              Carta de DB aos salesianos em 19 de março de 1885. – In: Lettere circolari di d. Bosco e di d. Rua ed altri loro scritti ai salesiani. Torino: Tipografia Salesiana, 1896, p.24-29.

 

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