Na vanguarda do progresso (II)

Gleuso Damasceno Duarte*

Um programa de atuação no “continente digital” (2ª parte)

Nesses assuntos, Dom Bosco quer estar sempre na vanguarda do progresso

Eventos marcantes

16 de agosto de 2015. Sintonizado com as comemorações do bicentenário do nascimento de Dom Bosco, o site www.domboscoaqui.com.br, da Inspetoria São João Bosco está reunindo um conjunto diversificado de informações e conhecimentos sobre o Santo dos Jovens, sua obra multiforme, seu sistema pedagógico, a presença atuante em 130 países, aproximadamente.

Neste contexto, os posts “Na vanguarda do progresso” analisam o episódio em que o grande educador recebeu em sua casa um ilustre visitante e, em conversa informal, definiu um programa de apostolado, resumido nesta frase: “Nesses assuntos, Dom Bosco quer estar sempre na vanguarda do progresso”.

Décadas depois, no comando supremo da Igreja Católica como Papa Pio XI, aquele visitante ainda recordaria o que havia visto e mais de uma vez citaria a frase de Dom Bosco.

 

Síntese emblemática

“Esses assuntos” aos quais se referia Dom Bosco eram avanços tecnológicos na produção e divulgação de livros, periódicos e outros materiais impressos.

A produção editorial ou, como se dizia então, “a arte tipográfica” estava tão desenvolvida em Valdocco, que o Pe. Aquiles Ratti, futuro Pio XI, referindo-se a ela, afirmou: “Vi hoje coisas admiráveis”.

E tinha razão: Dom Bosco implantara no Oratório de Valdocco uma editora completa, que ia da criação autoral à entrega de produtos feitos sob medida para seus destinatários.

Para otimizar os poucos recursos de que dispunha, Dom Bosco procurou dominar todo o processo editorial e, para cada uma de suas etapas, montou no Oratório instalações e oficinas apropriadas: tipografia, impressão, encadernação, expedição… e até uma oficina que raramente era encontrada na maioria das tipografias da época: uma fundição de tipos.

Para entender como era…

Quem está acostumado aos equipamentos, softwares e demais facilidades do mundo digital nem imagina como era complexa a produção editorial antes da invenção dos computadores pessoais e da popularização da informática. Para fazer uma ideia da importância do trabalho desenvolvido por Dom Bosco no campo editorial, vale a pena conhecer um pouco esse assunto, o que é  fácil na Internet, explorando temas relacionados à invenção da imprensa.  Três sugestões de entradas para a pesquisa:

https://pt.wikipedia.org/wiki/Johannes_Gutenberg  –

https://es.wikipedia.org/wiki/Tipograf%C3%ADa  –            

http://www2.uol.com.br/historiaviva/artigos/gutenberg_nao_inventou_a_imprensa.html

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Tipos móveis de metal. Sobre a caixa de tipos, um componedor, ferramenta necessária para posicionar manualmente cada letra no devido lugar


Na figura acima, cada compartimento contém numerosos tipos de uma letra ou sinal. Letras, sinais, espaços, linhas eram combinados no componedor, o aparelho que se vê sobre a caixa de tipos. Note que um pequeno trecho já foi composto. A “composição do texto” era a parte mais trabalhosa e demorada na produção de qualquer impresso. Hoje, graças à informática, compor o mesmo trecho é atividade que se executa em um ou dois minutos. 

Conhecer de perto aquela novidade foi um dos motivos da viagem que o futuro papa Pio XI, quando responsável pela famosíssima Biblioteca Ambrosiana, da Arquidiocese de Milão, fez até Turim. Convidado por Dom Bosco, hospedou-se na pequena comunidade salesiana de Valdocco, percorreu as oficinas, observou os trabalhos, analisou o que ali se produzia e soube avaliar o alcance do pioneirismo apostólico de seu anfitrião.

Para D. Bosco, o que era “vanguarda do progresso” ?

Quem considera superficialmente a famosa afirmação de Dom Bosco pode achar que ele se referia a equipamentos avançados para a época, usados nas oficinas de Valdocco. Puro engano. Ali havia, sim, máquinas que seriam motivo de orgulho em importantes estabelecimentos da indústria tipográfica, em franca expansão na Itália e em outros países.

Mas, ao lado dos equipamentos “modernos” que causavam admiração nos visitantes, havia também máquinas simples, adquiridas de segunda ou terceira mão, para serem “martirizadas” pela imperícia dos aprendizes, ao longo de sua formação profissional.

Isso porque as oficinas do Oratório eram essencialmente escolas, onde colaboradores e profissionais contratados por Dom Bosco ensinavam aos rapazes diversos ofícios. Assim, ele preparava seus jovens para o ingresso no mundo do trabalho: dava-lhes a formação escolar necessária e sobre esta base construía os conhecimentos teóricos e práticos de futuras profissões que lhes possibilitariam ganhar dignamente o próprio sustento.

Com sua visão de pioneiro, era natural que Dom Bosco buscasse os instrumentos mais adequados ao objetivo de preparar os rapazes para a inserção no mundo do trabalho.

Multiplicando o trabalho apostólico

Em suas oficinas, Dom Bosco visava atingir mais de um objetivo. Dando educação elementar, aprendizado profissional e formação religiosa, ele ajudava os jovens a se tornarem bons cristãos e honestos cidadãos.

Por outro lado, aproveitava esse aprendizado como oportunidade para aumentar e acelerar a produção de livros e outros impressos, ampliando seu campo de atuação apostólica.

De fato, naqueles tempos, a imprensa era a ferramenta de comunicação de maior alcance em todo o mundo. Livros, jornais, panfletos e outros impressos, escritos em linguagem adequada, despertavam o interesse de muitos, circulavam de mão em mão, e multiplicavam a ressonância das mensagens que difundiam.  Exatamente por isso despertavam interesse crescente entre líderes e adeptos de diferentes religiões, facções ideológicas, partidos, etc.

Mas, o idealismo de Dom Bosco não ofuscava seu bom senso e, menos ainda, a acuidade de pensamento. Ele via com clareza que a imprensa não era um instrumento neutro. Para usar linguagem de conhecimento geral, sabia que o material impresso era como faca de dois gumes: podia ser usado tanto para o bem quanto para o mal.

Essa percepção explica as repetidas recomendações que ele fazia aos educandos e educadores para recomendar a leitura dos bons livros e  evitar “i libri cativi”. Na primeira parte deste tema, fizemos referência a essa preocupação. Pretendemos voltar ao assunto na sequência desta série.

GDD* Bacharel licenciado em Filosofia; Professor de História; Mestre em Administração; Editor e autor de várias obras didáticas, foi assistente e professor em escolas salesianas. Atuou no planejamento e implementação da Rede Salesiana de Escolas.
Editor de Material Digital de Ensino Religioso da Edebe-Brasil.

[1]              CERIA, Eugenio. Memorie biografiche di Don Giovanni Bosco. vol_16, 1935, p.320. In:http://www.sangiovannibosco.net/memorie_biografiche/pdf/MB_vol_16.pdf.