O educador salesiano e a falta

Carlos Araújo*

Ao ingressar na casa salesiana, fiquei maravilhado com a perspectiva de realizar um trabalho educacional e social com os jovens.

Atividade educativa no Oratório Festivo N.S.Auxiliadora – Araxá.MG

Até então, não conhecia Dom Bosco nem sua obra, mas inspirado por seu trabalho, a cada desafio via aumentar minha motivação.

 

 

 

Nos pressupostos da pedagogia da presença, percebi a inserção de valores que também tinha como meus.

Crer no potencial dos jovens e no poder transformador que a presença do educador poderia fazer em suas vidas vinha ao encontro de minhas perspectivas profissionais.

Quanto mais conhecia os valores salesianos da amorevolezza, do diálogo, do respeito, da solidariedade e da vivência guiada por princípios éticos, mais me identificava com o trabalho.

Com o passar do tempo, como é normal, mudanças ocorreram na instituição, enquanto situações pontuais e de cunho individual, também contribuíram para a diminuição do entusiasmo. Mas, mesmo diante das dificuldades, continuei meu trabalho com dedicação e gosto. Entretanto, as mudanças e dificuldades no trabalho também continuaram e, frente a novas situações desmotivadoras, estive prestes a desistir.

Lembrei-me, então, da vida de nosso mestre.  Também Dom Bosco vivenciou inúmeras dificuldades  e superou todas elas. Refletindo sobre seu exemplo, percebi que estava me apegando à falta!

Segundo o dicionário Aurélio, alguns dos sentidos da palavra falta seriam: ausência de algo útil ou agradável e ainda, privação ou carência. [1]

Nesse sentido, eu estava me tornando um educador preocupado principalmente com aquilo que faltava. Assim, tudo poderia ser desculpa para a desmotivação: problemas técnicos, problemas interpessoais, e tantos outros. Eu enxergava apenas o sentido literal e comum da falta, algo negativo.

 

O objetivo primeiro de Dom Bosco era cuidar da juventude mais necessitada.

O objetivo primeiro de Dom Bosco era cuidar da juventude mais necessitada de apoio e oportunidades.

Se olharmos pelo viés da Psicologia, a falta oferece outra conceituação. Onde há falta, existe um vazio a ser preenchido. Assim, nos movemos para buscar algo que dê conta de preencher esta lacuna.

Identificamos, assim, duas conceituações bem distintas:

  • uma que mostra a falta como algo que não temos e que nos impede de prosseguir
  • outra que vê a falta como propulsora de um desejo de completude.

 

 

Ao comparar os dois cenários, veio-me à memória a noção humanista de potência.

Para Rogers, somos todos seres de potência, ou seja, capazes de fazer o melhor com aquilo que temos. Diante dessa realidade, ele afirma: “devemos ser autênticos, sendo transparentes e verdadeiros em nossas relações, sem apresentar “máscaras”, sendo o que realmente se é. E lembra que o que é prejudicial à relação é exatamente fingir ser o que não se é”.[2]

O mesmo autor afirma que existe no ser humano uma premissa fundamental, uma crença na pessoa humana como sendo um organismo digno de confiança, no qual existe um fluxo contínuo de movimento para uma realização construtiva e plena de possibilidades; uma tendência natural para seu desenvolvimento completo. [3]

Isso remete às palavras de Dom Bosco, quando diz que somos todos criados para o bem, e que cada um de nós tem uma corda propícia para o bem. Após refletir sobre esses conceitos, vi-me diante de duas possibilidades:

  • prender-me à falta, priorizando o lado negativo, ou seja, tudo aquilo que dificulta minhas realizações e meu trabalho; ou
  • enxergar na falta um lado positivo: a possibilidade de buscar aquilo de que preciso para completar-me.

Acredito que se pudesse pedir um conselho a Dom Bosco, ele me diria para escolher a segunda opção. Assim, optei por ser uma potência.

Dar o melhor de mim, com as ferramentas de que disponho. Acredito nos valores salesianos e na potencialidade do ser humano de ansiar pelo seu crescimento e buscá-lo com o desenvolvimento de suas potencialidades e com a integração com os semelhantes, e que essa motivação básica de todo ser humano se resume em buscar sempre mais vida para si e para os outros.

Diante dessas vivências, pode-se dizer que, para ser um educador em qualquer obra salesiana, devemos nos desapegar da falta, enquanto entrave ao crescimento, e sermos todos potências em prol da obra e do compromisso de sermos um diferencial positivo na vida de cada jovem atendido.

Deixo, então, este convite a todos os colegas salesianos: mudem seu olhar diante das dificuldades. Ignorá-las não fará com que desapareçam, mas nossas atitudes podem transformá-las em momentos de aprendizado e superação. Lembremo-nos de que o sonho e os objetivos de Dom Bosco devem hoje ser sonhos e objetivos de todos nós que abraçamos sua causa.

 

* Carlos Araújo é psicólogo com especialização em educação lúdica. Atualmente, trabalha como educador no Cesam – MG. E-mail para contato: carlos.silva@salesiano.br.

[1] FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda; ANJOS, Margarida dos; FERREIRA, Marina Baird. Verbete in: Dicionário Aurélio da língua portuguesa. Curitiba: Positivo, 2010
[2]ROGERS, Carl Ranson. De pessoa para pessoa: o problema de ser humano. São Paulo: Pioneira, 1978.
[3] ROGERS, Carl Ranson. Terapia Centrada no Cliente.São Paulo: Martins Fontes, 1992.

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