O irmão salesiano

Irmão Raymundo Mesquita, sdb*

 

Surpresas de um caleidoscópio

Estudar a vida de Dom Bosco é semelhante ao manuseio de um caleidoscópio: cada olhar dá nova perspectiva a elementos familiares ou mostra aspectos inesperados, como facetas surpreendentes de uma joia rara. Joia lapidada carinhosamente pela Mãe Auxiliadora, e oferecida por Deus como dom paterno à juventude, particularmente aos mais pobres e abandonados dentre seus filhos.

Esse pensamento me leva a chamar a atenção para uma característica de Dom Bosco, de grande relevância nos dias atuais: seguir os acontecimentos históricos e adequar o apostolado às exigências renovadas de cada tempo. Em 1883, falando aos salesianos, ele insistiu: é importante que procuremos conhecer nossos tempos e nos adaptemos a eles. Foi o que sempre fez.

 

Impacto chocante

Recém-ordenado sacerdote, Dom Bosco sente o impacto de ver a Generala (prisão em Turim) repleta de jovens delinquentes, e incontáveis bandos de crianças, adolescentes e jovens abandonados, que perambulam pelas ruas de Turim.

O encontro histórico com Bartolomeu Garelli, em 8 de dezembro de 1841, pode ser visto como marco inicial de seu apostolado em prol da juventude.

Imediatamente, Dom Bosco põe em campo sua criatividade: busca trabalho para os meninos; faz contratos com patrões para definir direitos e deveres de ambas as partes; cuida da educação inicial e do ensino de uma profissão para aqueles rapazes; compra a casinha Pinardi e inicia um internato para quem não tem onde morar. Promove o teatro, a música, os jogos, o oratório festivo, e inventa outras novidades, para atrair e educar os jovens.

Bem cedo, ele consegue o apoio de alguns sacerdotes que, embora limitados pelas próprias obrigações, colaboram ocasionalmente nas atividades do Oratório. Mas o trabalho aumenta sempre. E só esses auxiliares não bastam.

 

Novidade na Igreja

Dom Bosco sente necessidade de ter a seu lado auxiliares leigos, que se consagrem à vida religiosa para dedicar-se inteiramente àquele apostolado. Não como os “irmãos” das congregações de seu tempo, que cuidam da cozinha, da portaria, da sacristia, executam trabalhos braçais, mas como salesianos da linha de frente, que atuam em todos os setores da vida do Oratório, no cuidado permanente daquela juventude abandonada.

Homens que, sem estar vinculados ao ministério sacerdotal, são educadores dedicados à promoção integral dos jovens, sobretudo dos marginalizados, que assumem não apenas obrigações de ordem cultural, profissional, social e econômica, mas também de ordem catequética, litúrgica e missionária.

A importância desses homens na formação do Oratório e na história da Congregação é tão grande que o próprio Dom Bosco afirma: em muitos setores, eles são insubstituíveis.

 

Importância comprovada

Em inúmeros lugares, o carisma e a importância do irmão salesiano fizeram-se e continuam presentes.

Escola profissional Dom Bosco

 

Por exemplo, na Europa destruída pela Segunda Guerra Mundial, Itália, França, Espanha e outros países viram esses religiosos sem batina, em mangas de camisa, levantar as grandes escolas profissionais para os órfãos da guerra; e ensinarem a eles mais que uma profissão: a se organizarem solidariamente em sindicatos ou grupos de ajuda mútua, concretizando assim o ideal de Dom Bosco: formar bons cristãos e honestos cidadãos.

 

Muitos deixaram marcas no Brasil

Incontáveis iniciativas demonstram a intensa atuação dos irmãos salesianos em terras brasileiras. Destaque especial para construções até hoje admiradas, como o antigo Colégio e a Basílica de Nossa Senhora Auxiliadora, em Niterói; o Liceu e a majestosa igreja do Coração de Jesus, na capital paulista; igrejas e escolas no Bom Retiro (São Paulo), em Salvador, Belém, Campinas e outras localidades.

 

E na Inspetoria São João Bosco

Recordem-se inicialmente os irmãos construtores das obras de Silvânia, Barbacena, Cachoeira do Campo (Irmão Cleto), Santuário Dom Bosco de São João Del-Rey (Aldo Maia)  e Goiânia (José Ribeiro). Sem esquecer os numerosos artífices e mestres das várias escolas profissionais, dedicados a ensinar aos jovens as “artes e ofícios” requeridos pela sociedade em cada tempo e lugar.

E note-se que seu apostolado não se limitava às áreas técnicas. Apenas para exemplificar, relembrem-se, na ISJB, estes exemplos:

  • o Irmão Afonso, com a banda do Colégio Santa Rosa, de fama internacional;
  • o Professor Walmor Marcos Muniz Freitas que, após brilhantes estudos em Louvain, na Bélgica, foi professor em universidades do Rio de Janeiro e, nas horas vagas, seguindo as pegadas do mestre, transformava-se em mágico, aplaudido pelas mais exigentes plateias;
  • o Irmão Ataídes Cuman,  cuja  disciplina e presença em escolas com mil, dois mil alunos ou mais, eram por si mesmas um sinal de paz e tranquilidade, pois, como Dom Bosco, ele amava os educandos, que retribuíam na mesma moeda, porque sabiam que eram amados por ele, com amor de pai.

 

Um bando de imbecis? Pelo contrário…

No ano de 1978, participei em Manaus de um retiro espiritual dos irmãos salesianos da Inspetoria São Domingos Sávio. Observando aqueles homens vindos da floresta, onde dedicavam sua vida a um ideal que não lhes proporcionava monumentos, medalhas de ouro, qualquer honraria, e aos quais, muitas vezes, estaria reservada uma sepultura anônima na solidão da Amazônia, disse a mim mesmo: ou me encontro em meio a um grupo de imbecis, ou num grupo de santos.

Recordo com emoção os 37 homens daquele grupo. Por muito tempo, foram os responsáveis pela coleta de dados meteorológicos na imensidão da Amazônia, para controle da aviação nacional; eram irmãos salesianos que conheciam várias línguas, inclusive indígenas, cujas gramáticas foram os primeiros a escrever; todos levavam uma vida de privações, sem conforto, sem comodidades, distantes das próprias famílias e muitos, da própria pátria… A verdade se impunha: naquele retiro, eu estava em meio a um grupo de homens santos. Santos e felizes, porque continuavam na floresta a missão de Dom Bosco.

Ao recordar que Dom Bosco pensava que, para realizar plenamente sua missão de promoção humana e cristã da juventude mais pobre e abandonada, necessitava da colaboração dos religiosos leigos, o Capítulo Geral 21/175, reconhece e reafirma o valor do irmão salesiano, historicamente conhecido como “o salesiano sem batina, em mangas de camisa”.

Veja também

Dom Bosco: Síntese biográfica – 3. Valdocco A série “Dom Bosco Está Aqui” apresenta a biografia do fundador da Família Salesiana e algumas de suas realizações. Compõe-se de quatro capítulos, ...
Dom Bosco: Síntese biográfica – 5. Vídeo completo Este vídeo reúne em uma única apresentação os quatro capítulos da série "Dom Bosco Está Aqui". Assistir esta sequência ajuda a formar uma visão mais c...
Herança preciosa Para a grande Família Salesiana, 2015 foi um ano de bênçãos, de alegria e de renovado empenho na missão de viver com os jovens e para os jovens. O ...
Dom Bosco: Síntese biográfica – 2. Chieri A série “Dom Bosco Está Aqui” sintetiza a biografia do grande educador ao qual o papa João Paulo II deu o honroso título de Pai e Mestre da Juventude....