Reflexões de um educador salesiano

Gleuso Damasceno Duarte*

Leitura

Admirado até por seus oponentes e críticos,
o sistema educativo de Dom Bosco é hoje tão atual quanto era ao ser criado.
Vale a pena conhecê-lo.
Vale ainda mais colocá-lo em prática.

 

Corações em festa

Nos anos de 2014 e 2015, em mais de 120 países, a Família Salesiana intensificou a preparação para as comemorações do bicentenário do nascimento de São João Bosco, em 16 de agosto de 2015.

Festa memorável para os membros da Família Salesiana, seus colaboradores e educandos, repercutiu também entre incontáveis milhões de pessoas que ostentam a marca de seu carisma, recebida com a educação salesiana. Entre estas me incluo, revivendo com saudade as lembranças da adolescência no internato salesiano e do trabalho como educador, em escolas salesianas.

Neste contexto, muito me honra o convite do Sistema Salesiano de Comunicação Social da ISJB para compartilhar com seus colaboradores, principalmente os recém-chegados ao “time salesiano”, algumas reflexões sobre a pedagogia de Dom Bosco, o santo educador, a quem João Paulo II conferiu o título de Pai e Mestre da Juventude.

 

Um jeito especial de educar

Dom Bosco e seu método educativo sempre despertaram admiração. Mas, como todo líder social inovador, ele e sua obra foram e podem ser alvo de críticas. Pouco numerosas, elas nem sempre são objetivas, nunca imparciais. Frequentemente revelam fontes mal informadas, movidas por preconceito, razões ideológicas ou infectadas pelo ranço de um academicismo que só valoriza a produção intelectual sistematizada em jargão acadêmico.

Não obstante, mesmo entre aqueles que consideram qualquer religião irrelevante – quando não desnecessária ou prejudicial – não poucos reconhecem que o jeito bosquiano de educar merece mais que respeito: deve ser imitado e posto em prática. É o que afirma o famoso pedagogo italiano, Giuseppe Lombardo Radice.[1]

Em seu livro Clericais e maçons diante do problema da escola, polemizando com educadores da época (1920), ele incluiu um apêndice intitulado “É melhor Dom Bosco?”. Parte desse texto foi transcrita pelo Pe. Carlo Nanni, em O Sistema preventivo de D. Bosco, hoje – obra lançada pela Cisbrasil/Cib no corrente ano:

“Dom Bosco. Era um grande que deveríeis procurar conhecer. No âmbito da Igreja foi o corretor do jesuitismo e, sem ter a estatura de Inácio,[2] soube criar um imponente movimento de educação, restituindo à Igreja o contato com as massas, que ela estava perdendo. Para nós, que estamos fora da Igreja e de qualquer igreja, ainda assim é um herói, o herói da educação preventiva e da escola-família. Os seus continuadores podem orgulhar-se disto.

Da sua obra, nós podemos aprender alguma coisa para a escola laica. […] Se a nossa escola não chegar a tanto, isto é, a ser centro ativo da vida juvenil, que liga a si os jovens no agir ou, pelo menos, na lembrança, também depois que a deixaram; se a nossa escola não tiver os seus ex-alunos, como alunos agradecidos à mãe e desejosos de vez em quando de revê-la e de reviver com seus companheiros os dias alegres do estudo e do trabalho escolar, ainda não será escola. […] Escola? Não, escritório distribuidor de diplomas. Alunos? Não, contribuintes recalcitrantes da taxa do trabalho cerebral.

Dom Bosco? O segredo está aqui: UMA ideia. A nossa escola: MUITAS ideias. Muitas ideias pode tê-las também um imbecil, padre ou não padre, professor ou não professor. Uma ideia é difícil. Uma ideia quer dizer uma alma. […]

Dom Bosco! – Salesianos, continuai o vosso trabalho. Nós, vossos adversários, vos saudamos com gratidão, porque vós e todos os outros dogmáticos, semelhantes ou diversos de vós, se trabalhardes com verdadeira fé, nos obrigareis – contra a vossa intenção – a reforçar as escolas (da primária às superiores) onde não se ensina uma fé e um dogma, mas todas as fés, a fim de adquirir fé em si mesmo (fé no pensamento)”.[3] (Grifos do autor do post)

 

A ideia inovadora

Sistema Preventivo é o nome que o próprio Dom Bosco deu à sua maneira de educar a juventude. Uma ideia inovadora, baseada no amor aos educandos. Uma pedagogia sob medida para formar bons cristãos e honestos cidadãos. Esse jeito pessoal de educar, que ele ensinou a seus colaboradores mais na prática que na teoria, foi transmitido aos continuadores de sua obra. Em mais de 150 anos de aplicação pelo mundo afora, os resultados provaram e continuam demonstrando a eficácia desse método.

Lombardo Radice estava coberto de razão: Dom Bosco é um educador excepcional. Tem lugar garantido entre os maiores mestres da humanidade.

 

Nas pegadas do mestre

Também hoje, neste mundo globalizado, Dom Bosco é um exemplo a ser conhecido e imitado por todos os que se dedicam à formação das novas gerações.

Como educadores salesianos, cabe-nos aprofundar o conhecimento do sistema preventivo para adequá-lo aos tempos atuais, em que a humanidade vê suas estruturas sociais básicas abaladas pelos tsunamis do excesso de informação e do avanço tecnológico.

Mas, acima de tudo, temos o dever de colocá-lo em prática, para garantir um futuro melhor a esta juventude, imersa cada vez mais, desorientada e frequentemente perdida no emaranhado de redes e teias do “continente digital”.

 

Para ampliar seu conhecimento do tema

  1. BRAIDO, Pietro. Prevenir, não reprimir: o sistema educativo de Dom Bosco. São Paulo: Salesiana, 2004.
  2. FISTAROL, Orestes Carlinhos. Sistema preventivo e direitos humanos. Brasília: Cisbrasil-Cib, 2009.
  3. FRANCISCO. Discurso do papa Francisco aos participantes no capítulo geral da sociedade salesiana de São João Bosco. (31 /3/ 2014). In: <http://w2.vatican.va/content/francescomobile/pt/speeches/2014/march/

documents/papa-francesco_20140331_capitolo-generale-salesiani.html.

  1. NANNI, Carlo. O Sistema Preventivo de Dom Bosco, hoje. Brasília: Cisbrasil-Cib, 2014.
  2. PAULA, Antonio Pacheco de. Salesianidade. Brasília: Cisbrasil-Cib, 2008.
  3. PERINI, João Carlos. Dom Bosco e os jogos: a fascinante pedagogia do santo dos jovens. Brasília: Cisbrasil-Cib, 2014.

 

 

GDD* Bacharel licenciado em Filosofia; Professor de História; Mestre em Administração; Editor e autor de várias obras didáticas, foi assistente e professor em escolas salesianas. Atuou no planejamento e implementação da Rede Salesiana de Escolas.
Editor de Material Digital de Ensino Religioso da Edebe-Brasil.

 

 

[1] Giuseppe Lombardo Radice (1879-1938) foi filósofo, laicista militante, autor de obras sobre educação; professor em vários níveis de ensino, do primário aos cursos universitários, foi um dos responsáveis pela reforma da educação italiana na década de 1920.

[2] Radice refere-se a Inácio de Loyola, o fundador dos jesuítas. Nascida em 1534, essa congregação teve importante papel no combate ao avanço da Reforma protestante, sobretudo através da educação dos jovens e do trabalho missionário.

[3] RADICE, Giuseppe Lombardo. Clericali e massoni di fronte al problema della scuola. Roma: La Voce, 1920, p. 62-64 – In: NANNI, Carlo. O Sistema Preventivo de Dom Bosco, hoje. Brasília: Cisbrasil-CIB, 2014, p.16.

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