Três dias festivos para a Família Salesiana

Gleuso Damasceno Duarte*

Na maioria das sociedades atuais, cada início de ano é assinalado por festas, que variam no tempo e no espaço, espelhando a diversidade humana. Tais celebrações acompanham não só o ritmo da vida particular das pessoas, mas também o de suas organizações e instituições. Expressões significativas dessa realidade são os calendários de festas próprias de cada religião, como o ano litúrgico para os católicos.

Tanto no campo civil quanto no âmbito religioso, as celebrações são muitas e diversificadas, adaptando-se às crenças e valores particulares de cada grupo.

Para a Família Salesiana, além de iniciar novo ciclo anual de vida, o mês de janeiro oferece bons motivos de comemoração. São três festas emblemáticas, ricas de significado para os continuadores da obra de Dom Bosco e de  Madre Mazzarello.

 

1. A festa do Fundador (dia 31)

No último dia de janeiro, a Igreja católica celebra o fundador da grande Família Salesiana.
Recordando as comemorações do bicentenário, muitos poderiam indagar:

– Por quê essa festa não é comemorada em 16 de agosto, aniversário de nascimento de Dom Bosco?

O motivo é simples. Na tradição católica, para todos os fiéis, o dia do falecimento é considerado o “dies natalis”, isto é, o dia do nascimento para o céu.

Essa prática  existe desde o século I, quando os cristãos faziam uma recordação anual de cada mártir, no aniversário de seu martírio. Com o tempo, o costume estendeu-se aos outros santos católicos, entre eles São João Bosco e São Francisco de Sales. É por isso que, salvo em casos especiais, a festa de cada santo ocorre na data de sua morte.

2. A comemoração mensal de Maria Auxiliadora (dia 24)

A devoção de Dom Bosco a Nossa Senhora Auxiliadora foi notória em toda a sua vida. Os jovens das obras salesianas, as pessoas que colaboravam com Dom Bosco e com Madre Mazzarello percebiam claramente a importância que ele dava a essa devoção, seja na vida pessoal, seja no dia a dia das casas salesianas.

Entre inúmeros testemunhos dessa relevância, merecem destaque a construção da basílica de Maria Auxiliadora, em Valdocco, e a criação de uma associação para difundir o culto à mãe de Jesus, sob o título de Auxiliadora dos Cristãos.

Quando falava de suas obras, das dificuldades enfrentadas e vencidas e da difusão dos salesianos pelo mundo, para creditar à Mãe de Jesus todo o sucesso alcançado, Dom Bosco afirmava: Foi ela quem tudo fez!

Nossa Senhora Auxiliadora

Nossa Senhora Auxiliadora

Era natural que a festa de Nossa Senhora Auxiliadora, em 24 de maio, ganhasse tanta importância nas obras salesianas de todo o mundo.

Para manter viva essa devoção ao longo do ano, surgiu o hábito de se fazer uma comemoração mensal, prática comum em todas as obras salesianas.

 

3. A festa de São Francisco de Sales – dia 24

Desde seu tempo de seminário, Dom Bosco teve particular veneração pelo santo bispo de Genebra, que havia reconquistado para a fé católica tantos protestantes calvinistas.

Dom Bosco admirava não apenas a santidade, os conhecimentos e habilidades literárias do grande bispo, mas, principalmente, sua simplicidade no modo de ensinar, baseado na caridade evangélica e na maneira amável de tratar as pessoas.

Não por acaso, escolheu-o para patrono do Oratório de Valdocco, sua primeira obra em prol da juventude. Na introdução do Regulamento escrito para essa casa, ele escreveu: Este oratório é, também, colocado sob a proteção de são Francisco de Sales para indicar que a base na qual esta congregação se apoia, tanto entre quem comanda quanto em quem obedece, deve ser a caridade e a doçura, que são as virtudes características desse santo.” [1] Foi ele o patrono da primeira igreja salesiana, construída no Oratório de Valdocco.

A primeira igreja salesiana foi dedicada a São Francisco de Sales.

A primeira igreja salesiana foi dedicada a São Francisco de Sales.

Muito natural, portanto, que Dom Bosco o escolhesse para protetor e modelo dos continuadores de seu apostolado. Queria que seguissem os exemplos do grande santo, particularmente a maneira de tratar a todos, com paciência e amabilidade evangélicas.

É interessante notar que, no dia 26 de janeiro de 1853, na preparação da festa de São Francisco de Sales, o próprio Dom Bosco chamou de “salesianos” os seus primeiros auxiliares.[2] Escolheu esse nome 6 anos antes da criação da congregação salesiana, que ocorreria em 18 de dezembro de 1859, sob a denominação oficial de Sociedade de São Francisco de Sales.

E quando decidiu iniciar o Instituto das Filhas de Maria Auxiliadora, ramo feminino de sua obra educacional, Dom Bosco fez questão de que a eleição do primeiro capítulo, sob o comando de Madre Mazzarello, ocorresse no dia 29 de janeiro de 1872, que era então a festa litúrgica de São Francisco de Sales.[3]

A influência de São Francisco de Sales na vida de Dom Bosco e na história da Família Salesiana foi contínua e duradoura. Entre os dois santos, são numerosas as manifestações de identidade nas iniciativas apostólicas, formas de atuação, preocupação com a formação da juventude, empenho na salvação das almas, etc. Ambos perceberam a importância da imprensa como meio de defesa da fé, promoção dos bons costumes, evangelização popular, educação de crianças e jovens. E usaram essa ferramenta com maestria, em proveito da própria missão evangelizadora.

São Francisco de Sales (1567–1622) além de filósofo e teólogo renomado, foi também habilidoso escritor, embora menos prolífico que Dom Bosco. Duas de suas obras – Filoteia e Tratado do Amor de Deus – foram muito difundidas em seu tempo e pelos séculos consecutivos. Canonizado em 1665, declarado Doutor da Igreja em 1877, foi nomeado padroeiro dos jornalistas e escritores católicos em 1923. É venerado como santo também pela igreja anglicana.

Fontes: http://en.wikipedia.org/wiki/Francis_de_Sales;
http://it.wikipedia.org/wiki/ Francesco_di_Sales.

 
[1] Sac. GIOVANNI BOSCO. Regolamento dell´Oratorio di san Francesco di Sales in Valdocco. In: BRAIDO, Pietro. Dom Bosco: padre dos jovens no século da liberdade. São Paulo: Salesiana, 2008, v.1, p.306.
[2] SÃO JOÃO BOSCO. Memórias do Oratório de São Francisco de Sales (1815-1855). Brasília: Editora Dom Bosco, 2012, p.254.
[3] Francisco de Sales morreu a 28 de dezembro, mas, por causa das festas natalinas, sua festa foi transferida para o final de janeiro, inicialmente no dia 29,  depois para a data atual, 24 de janeiro.

 

Texto de *Gleuso Damasceno Duarte


GDD*Bacharel licenciado em Filosofia. Professor de História. Mestre em Administração. Editor e autor de várias obras didáticas. Foi assistente e professor em escolas salesianas. Atuou no planejamento e implementação da Rede Salesiana de Escolas. Editor de Material Digital de Ensino Religioso da Edebê-Brasil.

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